UNIDADE 4: ESTUDOS LINGÜISTICOS EM LIBRAS
 

      A língua possui um conjunto de palavras (vocabulário), além de suas regras gramaticais. Tratando-se de linguagem, significa que cada ser humano possui capacidade própria que o permite expressar seu pensamento através de uma língua.
        A lingüística é a teoria que estuda a linguagem e as línguas, sua estrutura e suas funções. Com base em descrições e explicações da teoria lingüística, mas com base nela, pode-se entender o que é linguagem e língua.
       É importante para professores entenderem e diferenciarem a linguagem e a língua, pois o modo como se concebe a natureza fundamental da língua, altera em muito o modo como se estrutura o trabalho com a língua em sala de aula.
        A concepção de linguagem é tão importante quanto a postura que se tem relativamente à educação. O autor Travaglia (2001, p. 21) fala que há três possibilidades distintas de gerar a linguagem: primeiro vê a linguagem como “expressão do pensamento”, isto é, que pessoas não se expressam bem porque não pensam bem. Então diz que “a expressão se constrói no interior da mente, sendo sua exteriorização apenas uma tradução”. Para ele “a enunciação é um ato monológico, individual, que não é afetado pelo outro nem pelas circunstâncias que constituem a situação social em que a enunciação acontece”. Por isso os sujeitos surdos, além de adquirir a sua língua materna (Libras), são capazes de enunciar individualmente.
        A segunda possibilidade é a linguagem como instrumento de comunicação, como meio objetivo para a comunicação. Nessa concepção a língua é vista como um código, ou seja, como um conjunto de signos que se combinam segundo regras, e que é capaz de transmitir uma mensagem, informações de um emissor a um receptor. A teoria de Saussure enfatiza o caráter social da língua em que a língua é um objeto social em que os indivíduos a criam, produzem, compreendem e desenvolvem entre si. Para Chomsky, a língua é um objeto de estudo mental, pois a língua está associada à faculdade da linguagem, que é inata, ou seja, todos os indivíduos nascem dotados dela.
      Segundo Travaglia, (2001, p 23) “A linguagem é, pois um lugar de interação humana, de interação comunicativa pela produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em uma dada situação de comunicação e em um contexto sócio-histórico e ideológico”.
         Por esta razão, os usuários da língua ou interlocutores interagem enquanto sujeitos que ocupam lugares sociais e “falam” e “ouvem” desses lugares de acordo com formações discursivas que a sociedade estabeleceu para tais lugares sociais. Se a comunicação se dá pelo uso de fala e audição, então os surdos também falam e ouvem, porém falam com as mãos e ouvem com os olhos.
       Pelas concepções apresentadas acima é possível perceber que a universalidade da linguagem “não é apenas invenção cultural qualquer, mas o produto de um instinto humano específico” (PINKER, 2002).
        A língua é também um fenômeno eminentemente social. As línguas emergem sempre que dois seres humanos entram em contato. Um exemplo recente de nascimento de um língua ocorreu na Nicarágua, na América Central. Antes de 1970, não havia comunidade surda na Nicarágua. (PETTER, 2002) Os surdos viviam isolados uns dos outros, e se comunicavam com ouvintes por meio de sinais caseiros e gestos. Não havia uma língua de sinais nicaragüense, até que os surdos se encontraram e surgiu a partir daí uma língua de sinais nicaragüense.
       As pessoas confundem língua com linguagem, mas os surdos possuem uma língua, como estudos da área da lingüística, desde a década de 60, compravam. Os surdos possuem uma língua, uma cultura, questões históricas as quais merecem ser consideradas e estudadas por todos nós. É um erro comum dizer: "linguagem de sinais". O correto é língua de sinais, do mesmo modo que não se diz “linguagem portuguesa” ou “linguagem alemã”, mas sim língua portuguesa e língua alemã. Assim a Lei Federal n° 10.436 de 24 de abril de 2002, traz oficialmente a Libras como Língua e isto é um grande passo para a comunidade surda. Esboço apenas o artigo primeiro desta lei:

Art. 1º - É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela associados.
Parágrafo único - Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual - motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (LEGISLAÇÃO FEDERAL)

       A Libras não pode ser estudada através do português, porque ela tem uma gramática própria, diferente da gramática portuguesa. As línguas de sinais são sistemas lingüísticos que passaram de geração em geração de pessoas surdas. São línguas que não se derivaram das línguas orais, mas fluíram de uma necessidade natural de comunicação entre pessoas que não utilizam o canal auditivo-oral, mas o canal espaço-visual como modalidade lingüística. As pessoas surdas podem aprender a ler português sem aprender a pronunciá-lo, da mesma forma que aprendemos língua estrangeira escrita sem saber pronunciar suas palavras.
        Retomando a reflexão feita sobre língua e linguagem, pode-se dizer que a Libras é uma língua materna para pessoas surdas que permite trabalhar com expressão de pensamento em linguagem, inclusive possibilitando a comunicação com seus atos lingüísticos e ainda como processo de interação.
        Quem pesquisou primeiramente a língua de sinais e comprovou que ela possui uma gramática foi William Stokoe, que era um lingüista escocês que vivia e trabalhava nos Estados Unidos. Em 1955, ele se tornou professor do Departamento de Inglês do Gallaudet College, hoje conhecido como Gallaudet University, uma universidade para surdos. Nessa época, ele não sabia nada de ASL (Língua de Sinais Americana). Ele teve que aprender alguns sinais ao mesmo tempo em que dava suas aulas em inglês, como a maioria dos outros professores. Nessa época, nem na Gallaudet havia aulas de ASL, pelo simples fato de que ninguém, nem mesmo os surdos consideravam a sinalização uma língua natural. Stokoe não demorou a perceber que existia uma diferença entre a sinalização que ocorria quando um surdo se comunicava com outro, e a que ele usava como acompanhamento de palavras em inglês, durante suas aulas. A partir daí, ele começou a observar cuidadosamente a sinalização usada pelos surdos e demonstrou que aquela sinalização era parte de uma língua autônoma, que seguia uma gramática própria. Stokoe, um ouvinte, que não sabia língua de sinais, descobriu a riqueza dos gestos e percebeu que nela havia uma gramática, e através das suas descrições, deu início a uma revolução nos estudos lingüísticos, mostrando para todo mundo que as línguas de sinais, são línguas naturais. Estes estudos exerceram e ainda exercem fortes influências nas pesquisas lingüísticas do Brasil e do mundo.

       A seguir, a imagem retirada através de site http://www.lsbvideo.com.br/product_info.php?products_id=129. Os sinais se formam a partir da combinação do movimento das mãos através de configurações de mão.

 

(Quadros e Karnopp,2004, p. 51)

Este sinal é ‘copo’, possui a configuração de mão se usa o movimento e o sinal tem de estar na locação de boca. Assim todos os parâmetros formam um sinal que significa copo.

       Os articuladores primários das línguas de sinais são as mãos, que se movimentam no espaço em frente ao corpo e articulam sinais em determinados pontos (locações) neste espaço. A combinação destas unidades menores sem significado pode formar as palavras na língua de sinais. Ao combiná-las, podemos identificar quais são realmente relevantes na língua de sinais, assim identificamos os “fonemas” da língua de sinais.
          Identificam-se as configurações de mão, as locações e os movimentos que têm um caráter distintivo. Isso pode ser feito comparando-se pares de sinais que são minimamente diferentes. Os parâmetros fonológicos estão ilustrados na figura a seguir, em que se observa que o contraste de apenas um dos parâmetros provoca diferença no significado dos sinais.


Pares de sinais que são minimamente diferentes

(Quadros e Karnopp, 2004,p 52)

Um sinal pode ser articulado com uma ou duas mãos:

Exemplos:

Mãe

(sinal articulado com uma mão)

Televisão/ futebol

(sinal articulado com as duas mãos)

Ajudar

(sinal articulado com as duas mãos)

        A língua de sinais apresenta outros parâmetros importantes: orientações e expressões não manuais. Veja o exemplo de sinal de ajudar, usa-se orientação para significar os pronomes usados ‘ele me ajuda’, ‘eu ajudo você’. E por último, temos o parâmetro das expressões não-manuais, algumas que são afetivas e outras que são gramaticais.

 

EXPRESSÕES AFETIVAS

TRISTE
FELIZ
BRABO

 

EXPRESSÕES GRAMATICAIS

QUANDO

 

VERDE
FRIO

             No Brasil, a língua de sinais começou a ser investigada na década de 80 e a aquisição dessa língua, nos anos 90.
        Quadros e Karnopp (2004) apresentam alguns autores como Chomsky, Saussure, Whitney que fizeram muitos estudos e pesquisas na área da lingüística, não apenas sobre a estrutura, mas também sobre a aquisição, o uso e o funcionamento da língua.  Stokoe direcionou seus estudos para a estrutura e aquisição da Língua de Sinais Americana. As autoras brasileiras Brito, Quadros e Karnopp desenvolveram pesquisas semelhantes à de Stokoe, com base em teorias lingüísticas conceituaram e descreveram o uso e funcionamento da Libras. Para Quadros e Karnopp (2004) as línguas de sinais apresentam as propriedades das línguas humanas, por exemplo:
- Flexibilidade e versatilidade: “línguas de sinais são usadas para pensar, são usadas para desempenhar diferentes funções. Você pode argumentar em sinais, pode fazer poesia em sinais, pode simplesmente informar, pode persuadir, pode dar ordens, fazer perguntas em sinais”.
- Arbitrariedade: convenção reconhecida pelos falantes/ sinalizantes, onde “as línguas de sinais apresentam palavras em que não há relação direta entre a forma e o significado”. Nem sempre o sinal está ligado com a forma do objeto, como o sinal de casa, os sinais possuem uma estrutura própria, por exemplo, os sinais de

CONHECER
PROBLEMA
BANHEIRO

- Descontinuidade: na língua de sinais, verifica-se o caráter descontínuo da diferença formal entre a forma e o significado. Há vários exemplos que ilustram isso, por exemplo, o sinal de PERIGO e o de MÃE é realizado na mesma locação, com a mesma configuração de mão, mas com uma pequena mudança no movimento e também expressão diferente, mesmo assim nunca são confundidos ao serem produzidos em um enunciado, pois apresentam uma distribuição semântica que não permite a confusão entre os significados apresentados dentro de um determinado contexto.

- Criatividade / produtividade: As línguas de sinais são produtivas assim como quaisquer outras línguas. Ou seja: a partir de um numero limitado de sinais, pode-se gerar um grande número de sentenças.  
- Dupla articulação: as línguas humanas apresentam dupla articulação. A primeira é das unidades menores, sem significado, e a segunda, das unidades que combinadas formam unidades com significado. Por exemplo, as configurações de mão por si só não apresentam significados, mas ao serem combinadas com movimento, locação e expressões faciais formam sinais que significam alguma coisa.
- Padrão: as línguas têm um conjunto de regras compartilhadas por um grupo de pessoas. As línguas de sinais também apresentam regras gramaticais. Você não pode produzir os sinais de qualquer jeito ao usar a língua de sinais brasileira, por exemplo. Você deve observar suas regras.
- Dependência estrutural: há uma relação estrutural entre os elementos da língua, ou seja, eles não podem ser combinados de forma aleatória. Também é observada uma dependência estrutural entre os termos produzidos nas línguas de sinais.

 

Comparação entre a estrutura de português e Libras

         A Libras e a Língua Portuguesa possuem complementos e núcleos, mas estruturas diferentes, por exemplo, em português: Eu vou passear com meu namorado. Em Libras: clique aqui para ver o vídeo os sinais são produzidos simultaneamente com expressões faciais, tornando a língua de sinais tão rica e complexa quanto qualquer língua oral.
        Por que a ordem dos sinais não é a mesma ordem das palavras do português? Quando os sinais seguem a mesma ordem do português, dizemos que a pessoa usou o português sinalizado. No entanto, o português sinalizado não é adequado para a comunicação nem para o ensino. Imagine você, usuário de língua portuguesa, esbarra a sentença que tenha sido dessa maneira: “Do you have filhos?” Entenderia rapidamente? Certamente levaria mais tempo para compreendê-la do que a de língua natural.
      A Libras para os surdos é fundamental assim como o Tupi é importante para tribos indígenas, e os índios utilizam o português escrito para comunicar-se com outros e entre eles utilizam sua própria língua.
        A relação do surdo com a língua de sinais é a mesma do ouvinte com a língua oral, ele não tem consciência das estruturas gramaticais de sua língua, mas as usa corretamente e adquire fluência sem esforço.
      As línguas de sinais distinguem-se das línguas orais porque se utilizam de um meio ou canal viso-espacial e não oral auditivo.
           Ressalto que a Libras é língua natural para surdos.

 

As línguas naturais têm a importante função de suporte do pensamento, função esta freqüentemente ignorada por especialistas envolvidos na educação do surdo que consideram a língua apenas como meio de comunicação.(...) As Línguas de sinais, por serem naturais e de fácil acesso para os surdos, são extremamente importantes para o preenchimento da função cognitiva e suporte do pensamento. (BRITO, 1993, p. 4)

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