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A língua possui um conjunto de palavras
(vocabulário), além de suas regras gramaticais.
Tratando-se de linguagem, significa que cada ser humano possui
capacidade própria que o permite expressar seu pensamento
através de uma língua.
A lingüística é a
teoria que estuda a linguagem e as línguas, sua estrutura e suas
funções. Com base em descrições e
explicações da teoria lingüística, mas
com base nela, pode-se entender o que é linguagem e
língua.
É importante para professores
entenderem e diferenciarem a linguagem e a língua, pois o modo
como se concebe a natureza fundamental da língua, altera em
muito o modo como se estrutura o trabalho com a língua em sala
de aula.
A concepção de
linguagem é tão importante quanto a postura que se tem
relativamente à educação. O autor Travaglia (2001,
p. 21) fala que há três possibilidades distintas de gerar
a linguagem: primeiro vê a linguagem como “expressão
do pensamento”, isto é, que pessoas não se
expressam bem porque não pensam bem. Então diz que
“a expressão se constrói no interior da mente,
sendo sua exteriorização apenas uma
tradução”. Para ele “a
enunciação é um ato monológico, individual,
que não é afetado pelo outro nem pelas
circunstâncias que constituem a situação social em
que a enunciação acontece”. Por isso os sujeitos
surdos, além de adquirir a sua língua materna (Libras),
são capazes de enunciar individualmente.
A segunda possibilidade é a linguagem como
instrumento de comunicação, como meio objetivo para a
comunicação. Nessa concepção a
língua é vista como um código, ou seja, como um
conjunto de signos que se combinam segundo regras, e que é capaz
de transmitir uma mensagem, informações de um emissor a
um receptor. A teoria de Saussure enfatiza o caráter social da
língua em que a língua é um objeto social em que
os indivíduos a criam, produzem, compreendem e desenvolvem entre
si. Para Chomsky, a língua é um objeto de estudo mental,
pois a língua está associada à faculdade da
linguagem, que é inata, ou seja, todos os indivíduos
nascem dotados dela.
Segundo Travaglia, (2001, p 23)
“A linguagem é, pois um lugar de interação
humana, de interação comunicativa pela
produção de efeitos de sentido entre interlocutores, em
uma dada situação de comunicação e em um
contexto sócio-histórico e ideológico”.
Por esta razão, os usuários da
língua ou interlocutores interagem enquanto sujeitos que ocupam
lugares sociais e “falam” e “ouvem” desses
lugares de acordo com formações discursivas que a
sociedade estabeleceu para tais lugares sociais. Se a
comunicação se dá pelo uso de fala e
audição, então os surdos também falam e
ouvem, porém falam com as mãos e ouvem com os olhos.
Pelas concepções apresentadas
acima é possível perceber que a universalidade da
linguagem “não é apenas invenção
cultural qualquer, mas o produto de um instinto humano
específico” (PINKER, 2002).
A língua é também um
fenômeno eminentemente
social. As línguas emergem sempre que dois seres humanos entram
em contato. Um exemplo recente de nascimento de um língua
ocorreu na Nicarágua, na América Central. Antes de 1970,
não havia comunidade surda na Nicarágua. (PETTER, 2002)
Os surdos viviam isolados uns dos outros, e se comunicavam com ouvintes
por meio de sinais caseiros e gestos. Não havia uma
língua de sinais nicaragüense, até que os surdos se
encontraram e surgiu a partir daí uma língua de sinais
nicaragüense.
As pessoas confundem língua com linguagem,
mas os surdos possuem
uma língua, como estudos da área da
lingüística, desde a década de 60, compravam. Os
surdos possuem uma língua, uma cultura, questões
históricas as quais merecem ser consideradas e estudadas por
todos nós. É um erro comum dizer: "linguagem de sinais".
O correto é língua de sinais, do mesmo modo que
não se diz “linguagem portuguesa” ou
“linguagem alemã”, mas sim língua portuguesa
e língua alemã. Assim a Lei Federal n° 10.436 de 24 de abril de 2002,
traz oficialmente a Libras como Língua e isto é um grande
passo para a comunidade surda. Esboço apenas o artigo primeiro
desta lei:
Art. 1º - É reconhecida como meio legal de
comunicação e expressão a Língua Brasileira
de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela
associados.
Parágrafo único - Entende-se como Língua
Brasileira de Sinais – Libras a forma de
comunicação e expressão, em que o sistema
lingüístico de natureza visual - motora, com estrutura
gramatical própria, constituem um sistema
lingüístico de transmissão de idéias e fatos,
oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
(LEGISLAÇÃO FEDERAL)
A Libras
não pode ser estudada através do português, porque
ela tem uma gramática própria, diferente da
gramática portuguesa. As línguas de sinais são
sistemas lingüísticos que passaram de geração
em geração de pessoas surdas. São línguas
que não se derivaram das línguas orais, mas
fluíram de uma necessidade natural de comunicação
entre pessoas que não utilizam o canal auditivo-oral, mas o
canal espaço-visual como modalidade lingüística. As
pessoas surdas podem aprender a ler português sem aprender a
pronunciá-lo, da mesma forma que aprendemos língua
estrangeira escrita sem saber pronunciar suas palavras.
Retomando a reflexão feita sobre língua e linguagem,
pode-se dizer que a Libras é uma língua materna para
pessoas surdas que permite trabalhar com expressão de pensamento
em linguagem, inclusive possibilitando a comunicação com
seus atos lingüísticos e ainda como processo de
interação.
Quem pesquisou primeiramente a
língua de sinais e comprovou que ela possui uma
gramática foi William Stokoe, que era
um lingüista escocês que vivia e trabalhava nos Estados
Unidos. Em 1955, ele se tornou professor do Departamento de
Inglês do Gallaudet College, hoje conhecido como Gallaudet
University, uma universidade para surdos. Nessa época, ele
não sabia nada de ASL (Língua de Sinais Americana). Ele
teve que aprender alguns sinais ao mesmo tempo em que dava suas aulas
em inglês, como a maioria dos outros professores. Nessa
época, nem na Gallaudet havia aulas de ASL, pelo simples fato de
que ninguém, nem mesmo os surdos consideravam a
sinalização uma língua natural.
Stokoe não demorou a perceber que existia uma diferença
entre a sinalização que ocorria quando um surdo se
comunicava com outro, e a que ele usava como acompanhamento de palavras
em inglês, durante suas aulas. A partir daí, ele
começou a observar cuidadosamente a sinalização
usada pelos surdos e demonstrou que aquela sinalização
era parte de uma língua autônoma, que seguia uma
gramática própria. Stokoe, um ouvinte, que não
sabia língua de sinais, descobriu a riqueza dos gestos e
percebeu que nela havia uma gramática, e através das suas
descrições, deu início a uma
revolução nos estudos lingüísticos, mostrando
para todo mundo que as línguas de sinais, são
línguas naturais. Estes estudos exerceram e ainda exercem fortes
influências nas pesquisas lingüísticas do Brasil e do
mundo.
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(Quadros e
Karnopp,2004, p. 51)
Este sinal é ‘copo’, possui a
configuração de mão se usa o
movimento e o sinal tem de estar na
locação de boca. Assim todos os parâmetros formam
um sinal que significa copo.
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Os articuladores
primários das línguas de sinais são as
mãos, que se movimentam no espaço em frente ao corpo e
articulam sinais em
determinados pontos (locações) neste espaço. A
combinação destas unidades
menores sem significado pode formar as palavras na língua de
sinais. Ao
combiná-las, podemos identificar quais são realmente
relevantes na língua de
sinais, assim identificamos os “fonemas” da língua
de sinais.
Identificam-se as
configurações de mão, as locações e
os
movimentos que têm um caráter distintivo. Isso pode ser
feito comparando-se
pares de sinais que são minimamente diferentes. Os
parâmetros fonológicos estão
ilustrados na figura a seguir, em que se observa que o contraste de
apenas um
dos parâmetros provoca diferença no significado dos sinais.
Pares de sinais que são minimamente
diferentes
(Quadros e
Karnopp, 2004,p 52)
Um sinal pode
ser articulado com uma ou duas mãos:
Exemplos:
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Mãe
(sinal
articulado com uma mão)
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Televisão/
futebol
(sinal
articulado com as duas mãos)
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Ajudar
(sinal
articulado com as duas mãos)
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A língua de sinais apresenta outros
parâmetros importantes:
orientações e expressões não manuais. Veja
o exemplo de sinal de ajudar, usa-se
orientação para significar os pronomes usados ‘ele
me ajuda’, ‘eu ajudo você’.
E por último, temos o parâmetro das expressões
não-manuais, algumas que são
afetivas e outras que são gramaticais.
EXPRESSÕES
AFETIVAS
EXPRESSÕES
GRAMATICAIS
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QUANDO
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VERDE
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FRIO
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No Brasil, a
língua de sinais começou a ser
investigada na
década de 80 e a aquisição dessa língua,
nos anos 90.
Quadros e Karnopp (2004) apresentam
alguns autores como
Chomsky, Saussure, Whitney que fizeram muitos estudos e pesquisas na
área da
lingüística, não apenas sobre a estrutura, mas
também sobre a aquisição, o uso
e o funcionamento da língua. Stokoe
direcionou seus estudos para a estrutura e aquisição da
Língua de Sinais
Americana. As autoras brasileiras Brito, Quadros e Karnopp
desenvolveram
pesquisas semelhantes à de Stokoe, com base em teorias
lingüísticas
conceituaram e descreveram o uso e funcionamento da Libras. Para
Quadros e
Karnopp (2004) as línguas de sinais apresentam as propriedades
das línguas
humanas, por exemplo:
- Flexibilidade e versatilidade: “línguas de sinais
são
usadas para pensar, são usadas para desempenhar diferentes
funções. Você pode
argumentar em sinais, pode fazer poesia em sinais, pode simplesmente
informar,
pode persuadir, pode dar ordens, fazer perguntas em sinais”.
- Arbitrariedade: convenção
reconhecida pelos falantes/ sinalizantes, onde “as línguas
de sinais apresentam
palavras em que não há relação direta entre
a forma e o significado”. Nem
sempre o sinal está ligado com a forma do objeto, como o sinal
de casa, os
sinais possuem uma estrutura própria, por exemplo, os sinais de
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CONHECER
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PROBLEMA
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BANHEIRO
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- Descontinuidade: na língua de
sinais, verifica-se o caráter
descontínuo da diferença formal entre a forma e o
significado. Há vários exemplos que ilustram isso, por
exemplo, o sinal de PERIGO e o de MÃE é realizado na mesma
locação, com
a mesma configuração de mão, mas com
uma pequena mudança
no movimento e também expressão diferente, mesmo assim
nunca são confundidos ao
serem produzidos em um enunciado, pois apresentam uma
distribuição semântica
que não permite a confusão entre os significados
apresentados dentro de um
determinado contexto.
- Criatividade / produtividade: As línguas de sinais são
produtivas assim como quaisquer outras línguas. Ou seja: a
partir de um numero
limitado de sinais, pode-se gerar um grande número de
sentenças.
- Dupla articulação: as línguas humanas apresentam
dupla
articulação. A primeira é das unidades menores,
sem significado, e a segunda,
das unidades que combinadas formam unidades com significado. Por
exemplo, as
configurações de mão por si só não
apresentam significados, mas ao serem
combinadas com movimento, locação e expressões
faciais formam sinais que
significam alguma coisa.
- Padrão: as línguas têm um
conjunto de regras compartilhadas
por um grupo de pessoas. As línguas de sinais também
apresentam regras
gramaticais. Você não pode produzir os sinais de qualquer
jeito ao usar a
língua de sinais brasileira, por exemplo. Você deve
observar suas regras.
- Dependência
estrutural: há uma
relação estrutural entre os
elementos da língua, ou seja, eles não podem ser
combinados de forma aleatória.
Também é observada uma dependência estrutural entre
os termos produzidos nas
línguas de sinais.
Comparação
entre a estrutura de português e Libras
A Libras e
a Língua Portuguesa possuem complementos e núcleos,
mas estruturas diferentes, por exemplo, em português: Eu vou
passear com meu
namorado. Em
Libras: clique aqui para ver o vídeo os sinais
são
produzidos simultaneamente
com expressões faciais, tornando a língua de sinais
tão rica e complexa quanto
qualquer língua oral.
Por que a ordem dos sinais
não é a mesma ordem das palavras
do português? Quando os sinais seguem a mesma ordem do
português, dizemos que a
pessoa usou o português sinalizado. No entanto, o português
sinalizado não é
adequado para a comunicação nem para o ensino. Imagine
você, usuário de língua
portuguesa, esbarra a sentença que tenha sido dessa maneira:
“Do you have
filhos?” Entenderia rapidamente? Certamente levaria mais tempo
para
compreendê-la do que a de língua natural.
A Libras para os surdos é
fundamental assim como o Tupi é
importante para tribos indígenas, e os índios utilizam o
português escrito para
comunicar-se com outros e entre eles utilizam sua própria
língua.
A relação do
surdo com a língua de sinais é a mesma do
ouvinte com a língua oral, ele não tem consciência
das estruturas gramaticais
de sua língua, mas as usa corretamente e adquire fluência
sem esforço.
As línguas de sinais
distinguem-se das línguas orais porque
se utilizam de um meio ou canal viso-espacial e não oral
auditivo.
Ressalto que a Libras é
língua natural para surdos.
As
línguas naturais têm a importante função de
suporte do pensamento, função esta freqüentemente
ignorada por especialistas envolvidos na educação do
surdo que consideram a língua apenas como meio de
comunicação.(...) As Línguas de sinais, por serem
naturais e de fácil acesso para os surdos, são
extremamente importantes para o preenchimento da função
cognitiva e suporte do pensamento. (BRITO, 1993, p. 4)
Atividades
Workshop
Referências
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