UNIDADE 4: ATIVIDADES

 Eu me chamo “eu”

Na escola, ensinaram-me a dizer meu nome, Emanuelle. Mas Emanuelle é um pouco uma pessoa exterior a mim. Ou um duplo. Quando falo de mim, digo:

-Emanuelle escuta...

-Emanuelle fez isso ou aquilo...

Levo em mim a Emmanuelle surda, e tento falar dela, como se fôssemos duas.

Sei pronunciar também algumas outras palavras, algumas delas pronuncio mais ou menos bem, outras não. O método ortofônico consiste em colocar a mão sobre a garganta do reeducador para sentir as vibrações da pronunciação. Aprendemos o “r”, o “r” vibra como “ra”. Aprendemos os “f”, os “ch”. O “ch” é problemático para mim, nunca consigo. Das consoantes para as vogais, sobretudo as consoantes, passamos para palavras inteiras. Repetimos a mesma palavra por horas inteiras. Imito o que vejo sobre os lábios, a mão colocada sobre o pescoço do ortofonista; trabalho como um macaquinho.

Cada vez, que uma palavra é pronunciada, uma freqüência se inscreve sobre a tela de um aparelho. Pequenas linhas verdes, como aquelas de um eletrocardiograma nos hospitais, dançam diante dos meus olhos. É preciso acompanhar as pessoas linhas, que sobem e descem, param, saltam e caem novamente.

O que é, para mim, uma palavra sobre a tela? Um esforço para fazer com que a minha pequena linha verde chegue à mesma altura que a do ortofonista. É cansativo, e repetimos uma palavra em seguida da outra, sem entendê-la. Um exercício de garganta. Um método de papagaio.

Os surdos não conseguem articular tudo, é uma mentira afirmar o contrário. E quando conseguem, a expressão fica sempre limitada.

Ia fazer sete anos na próxima volta às aulas, e estava no nível pré-escolar. Mas minha existência, o universo restrito no qual passava a maior parte do tempo em silêncio, iria explodir de uma só vez.

Meu pai escutou alguma coisa ao rádio. Uma coisa que iria acontecer e que da qual eu nunca duvidaria ser um milagre.

O rádio, para mim, era um objeto misterioso que falava para os ouvintes e com o qual eu não preocupava. Mas, meu pai contou, naquele dia um surdo se manifestara na França-Cultura!

Meu pai explicou à minha mãe que aquele homem, o ator e diretor Alfredo Corrado, falava silenciosamente a língua de sinais. É uma linguagem inteiramente diferente, que se fala no espaço, com as mãos, com a expressão do rosto, do corpo!

Um intérprete, também americano, traduzia, em voz alta, em francês, para os ouvintes. Esse homem contou que havia criado em 1976 a Internacional Visual Theatre (IVT), o teatro dos surdos de Vincennes. Alfredo Corrado trabalhava nos Estados Unidos. Havia em Washington uma universidade, a universidade Gallauadet, reservada aos surdos, e ele fizera lá seus estudos universitários.

Meu pai ficou abalado. Um surdo capaz de fazer estudos universitários, enquanto na França eles só conseguiam chegar com dificuldade ao primeiro ano do secundário!

Estava ao mesmo tempo louco de alegria e de raiva.

De raiva, porque na qualidade de médico, tinha confiado em seus colegas. Os pediatras, os ORL, os ortofonistas, todos os pedagogos tinham lhe assegurado que unicamente o aprendizado da linguagem falada poderia me ajudar a sair do isolamento. Mas ninguém o informava sobre a língua de sinais. Era a primeira vez que escutava falar disso, e ainda por cima de um surdo!

De alegria, porque em Vincennes, perto de Paris, encontrava-se certamente uma solução para mim! Queria me levar. Sofria muito por não conseguir falar comigo, estava pronto a fazer a experiência.

Mamãe disse que não iria acompanhá-lo. Tinha medo de se perturbar, talvez de se decepcionar. Quase na época de dar à luz, ela encarregava meu pai de me levar a Vincennes. Sentia que a criança que levava consigo não era surda. Sentia a diferença entre aquele bebê ainda escondido no seu ventre e eu. O bebê novo mexe-se muito, reage aos barulhos exteriores. Eu dormia tranquilamente, ao abrigo dos alaridos. A chegada da segunda criança da família, quase sete anos depois de mim, era, naquele momento, a sua única preocupação. Mamãe tinha necessidade de calma, e de se preocupar um pouco consigo mesma. Compreendo que a emoção ligada àquela esperança nova fosse bastante forte para ela; ela temia uma nova decepção. E além do mais, tínhamos, ela e eu, nosso sistema complicado de comunicação eu chamo de “umbilical”. Estávamos habituadas com ele. Meu pai, por seu lado, nada tinha. Sabia que eu era feita para me comunicar com os outros, que tinha vontade disso, todo o tempo. Entusiasmava aquela possibilidade caída do céu, por meio do rádio.

Creio que foi a primeira vez que ele aceitou realmente a minha surdez, ao me oferecer aquele presente inestimável. Oferecia-o também a si mesmo, pois gostaria desesperadamente de se comunicar comigo.

Evidentemente, eu não compreendia nada, não sabia o que se passava. Meu pai tinha o rosto perturbado. Estas são minhas únicas lembranças daquele dia emocionante para ele e formidável para mim: o rádio e seu rosto.

No dia seguinte, levou-me ao castelo de Vincennes. Recordo certas imagens daquele dia. Subimos as escadarias, depois do percurso para a cidadezinha. Entramos num grande aposento. Meu pai conversou com dois ouvintes. Dois adultos que não usavam aparelhos, os quais, portanto, para mim não eram surdos. Só identificava os surdos, naquela época, pelos aparelhos. Ora, um era surdo, o outro não. Um deles se chamava Alfredo Corrado, o outro se chamava Bill Moody, era um ouvinte intérprete da língua de sinais.

Lembro-me de ver Alfredo e Bill fazendo sinais entre si, lembro que meu pai se entendia com Bill, já que Bill falava. Mas os sinais não queriam dizer nada para mim, eram surpreendentes, rápidos, complicados. O código simples que havia inventado com minha mãe era baseado em mímicas e algumas palavras oralizadas. Era a primeira vez que via aquilo. Olhava para aqueles dois homens boquiaberta. Mãos, dedos que se mexem, o corpo também, e a expressão do rosto. Era bonito, era fascinante.

Quem é surdo? Quem é que se escuta? Mistério. Depois disse a mim mesma: “Veja, é um ouvinte que conversa com as mãos”.

Alfredo Corrado era um homem bonito, grande, com jeito de italiano, os cabelos muito negros, o corpo magro. O rosto era um pouco austero, usava bigodes. Bill tinha cabelos semilongos, estirados, olhos azuis, uma “cabeça”. Uma pessoa direta, simpática. Os dois pareciam ter a mesma idade de meu pai.

Havia também Jean Grémion, diretor e fundador do centro social e cultural dos surdos, que nos recebeu.

Alfredo vem para perto de mim e me fala:

-Sou surdo, como você, e faço sinais. É minha língua.

Imito-o:

-Por que você não usa aparelho nos ouvidos?

Ele sorri, era evidente que para ele um surdo não tinha necessidade de aparelho. Enquanto para mim o aparelho representava a marca visível.

Alfredo era portanto surdo, sem aparelho, e, além do mais, era adulto. Creio que levei um pouco de tempo para compreender aquela tríplice estranheza.

Ao contrário, compreendi imediatamente que não estava sozinha no mundo. Uma revelação imprevista. Um deslumbramento. Eu, que me acreditava única e destinada a morrer criança, como costumam imaginar que aconteceria às crianças surdas, acabava de descobrir que existia um futuro possível, já que Alfredo era adulto e surdo!

Essa lógica cruel permanece enquanto as crianças surdas não se encontram com um adulto. Elas têm necessidade dessa identificação com os adultos, uma necessidade crucial. É preciso convencer todos os pais de crianças surdas a colocá-las em contato, o mais rápido possível, com adultos surdos, desde o nascimento. É preciso que os dois mundos se entrelacem, aquele do barulho e o outro, do silêncio. O desenvolvimento psicológico da criança surda se fará mais rapidamente e bem melhor. Ela se constituirá longe daquela solidão angustiante de ser única no mundo, sem idéias construtivas e sem futuro.

Imagine que você tem um gatinho a quem nunca foi mostrado um gato adulto. Ele vai tomar-se por um gatinho eternamente. Imagine que esse gatinho viva apenas com cães. Ele acreditará que é o único gato existente. Ele vai se esgotar na tentativa de se comunicar na língua dos cães. Conseguirá transmitir algumas mímicas para os cães. Conseguirá transmitir algumas mímicas para os cães: comer, beber, medo e ternura, submissão ou agressividade. Mas será muito mais feliz e equilibrado com todos os seus, crianças e adultos. Falando a língua dos gatos!

Ora, com a técnica da oralização, que quiseram impor a meus pais desde o princípio, não tive nenhuma oportunidade de encontrar um adulto surdo, com o qual pudesse me identificar, porque os desaconselharam a fazer isso. Relacionava-me apenas com ouvintes.

Aquele primeiro encontro, maravilhoso, quando fiquei boquiaberta olhando as mãos se agitarem, não me deixou uma lembrança muito nítida. Ignoro o que meu pai conversou com dois homens. Havia apenas estranhamento de ver meu pai entender o que diziam as mãos de Alfredo e a boca de Bill. Ignorava ainda, naquele dia, que iria ter acesso a uma língua graças a ele. Mas levava em minha cabeça a revelação formidável que Emmanuelle poderia se tornar adulta! Tinha visto com os meus próprios olhos.

Na semana seguinte, meu pai me levou novamente a Vincennes. Tratava-se de uma “oficina de comunicação pais-crianças”. Havia muitos pais. Alfredo começa a trabalhar com as crianças, que instala em torno de si. Faz sinais, e os pais olham para aprender ao mesmo tempo. Lembro-me de sinais simples, como por exemplo: “casa”, “comer”, “beber”, “dormir”, “mesa”.

Nas folhas colocadas sobre a mesa, desenha uma casa e nos mostra o sinal a ela correspondente. Em seguida, desenha um personagem adulto, explicando-nos:

É seu pai, você é a filha de seu pai; é sua mãe, você é a filha da sua mãe.

Mostra também alguém procurando alguma coisa. Através da mímica primeiramente, com sinais depois. Pergunta-me:

-Onde está mamãe?

Faço os sinais:

-Mamãe não está.

Então me corrige:

-Onde está mamãe? Mamãe está em casa. Faça-me os sinais de mamãe e de casa.

Uma frase completa: “Mamãe não está em casa”. Com sete anos exprimo finalmente, com minhas duas mãos, a identificação de minha mãe e o lugar onde ela se encontra!

Os olhos nos olhos de Alfredo, repito com minhas duas alegres mãos: “Mamãe não está”.

Nos primeiros dias, aprendo as palavras da vida corrente, em seguida os pronomes pessoais. Ele é Alfredo, eu, Emmanuelle. Um sinal para ele, um sinal para mim.

Emmanuelle: “Sol que parte do coração”. Emmanuelle para ouvintes, o sol que parte do coração Para os surdos.

Era a primeira vez que aprendia que podemos dar um nome às pessoas. Era formidável. Não sabia que havia nomes em minha família, a não ser o de papai e de mamãe. Encontrava-me com as pessoas, amigos de meus parentes, membros da família, mas eles não tinham nenhum nome para mim, nenhuma definição. Estava muito surpresa em descobrir que um se chamava Alfredo, o outro Bill... E acima de tudo que eu me chamava Emmanuelle. Compreendia por fim que tinha uma identidade. Eu: Emmanuelle.

Até então, falava de mim mesma como se fosse uma outra pessoa, uma pessoa que não era “eu”. Diziam-me sempre: “Emmanuelle é surda”. Ou então: “Ela o escuta, ela não o escuta”. Não havia o “eu”. Eu era “ela”.

Para aqueles que nasceram com o próprio nome na cabeça, um nome que mamãe e papai repetiram, para quem se habituou a virar a cabeça ao chamado de seu próprio nome, é talvez difícil de entender. Sua identidade está dada desde o nascimento. Não têm necessidade de pensar nela, não se questionam sobre si mesmos. São “eu”, naturalmente, sem esforço. Eles se conhecem, se identificam, se apresentam aos outros como um símbolo que os representa. Mas a Emmanuelle surda não sabia que ela era “eu”. Descobriu isso com a língua de sinais, e agora ela sabe. Emmanuelle pode dizer: “Eu me chamo Emmanuelle”.

Essa descoberta foi uma alegria. Emmanuelle não era mais aquele duplo de que precisava De quem precisava explicar, com dificuldade, quais eram as necessidades, as vontades, as aversões, as angústias. Descobria o mundo que me cercava, e era eu que me encontrava no interior do mundo.

Foi também a partir desse momento que, por me encontrar regularmente com adultos surdos, deixei completamente de acreditar que iria morrer. Não pensei mais naquilo. E foi meu pai que me deu esse presente magnífico.

Foi um novo nascimento, a vida começou mais uma vez. O primeiro muro caiu. Havia ainda outros em torno de mim, mas foi aberta a primeira brecha em minha prisão, iria compreender o mundo com os olhos e com as mãos. Sonhava. Estava tão impaciente!

Diante de mim, havia aquele homem maravilhoso que me ensinava o mundo. O nome das pessoas e das coisas; há um sinal para Bill, um para Alfredo, um para Jacques, meu pai, minha mãe, minha irmã, para a casa, a mesa, o gato... Vivia! E tinha tantas perguntas a fazer! Tantas e tantas. Estava ávida, sedenta de respostas, já que podiam me responder!

No começo, misturava todos os meios de comunicação. As palavras que saiam oralmente, os sinais, as mímicas. Estava um pouco perturbada, confusa. Aquela língua de sinais caiu sobre mim subitamente, deram-na para mim aos sete anos, era preciso que me organizasse, que fizesse a triagem das informações que chegavam. E elas eram consideráveis. A partir do momento em que podemos dizer, por exemplo, com as mãos, em uma linguagem acadêmica e construída: “eu me chamo Emmanuelle. Tenho fome. Mamãe está em casa, papai está comigo. Meu amigo se chama Jules, meu gato se chama Bobine...” A partir de então, somos seres humanos capazes de nos comunicar, capazes de nos construir.

Não aprendi em dois dias, certamente. Em casa, continuei a usar um pouco o código maternal, misturando-lhe os sinais. Lembro-me de que me entendiam, mas não me recordo da primeira frase que constitui com os sinais e que eles compreenderam.

Pouco a pouco, arrumei as coisas em minha cabeça e comecei a ter um pensamento, uma reflexão organizada. A comunicar-me com meu pai, sobretudo.

Depois, minha mãe se juntou a nós em Vincennes. Ela iria sair, ela também, do túnel no qual fecharam meus pais desde meu nascimento, dando-lhes falsas informações e falsas esperanças. Choque para minha mãe. Lugar de encontro de surdos.

Lugar de vida, de recreação, de aprendizado para os surdos. Lugar de encontro com os pais enredados nas mesmas dificuldades, com os profissionais da surdez, que colocam em causa as informações e as práticas do corpo médico. Pois eles estavam decididos a ensinar uma língua. A língua de sinais. Não um código, um jargão; mas uma verdadeira língua.

Lembrando-se da primeira vez em Vincennes, mamãe conta:

-Senti um medo terrível. Confrontava-me com a realidade. Era como um segundo diagnóstico. As pessoas eram calorosas, mas ouvi histórias sobre o sofrimento de crianças, o isolamento terrível que tinham vivido antes. Suas dificuldades de adultos, seus combates permanentes. Vomitei tudo aquilo. Havia me enganado. Tinham me enganado dizendo: “Com a reeducação, com o aparelho, ela vai falar...”.  

Meu pai conta:

- Era como se até então não houvesse escutado, ou não houvesse desejado escutar “um dia, ela FALARÁ”.

Vincennes é um outro mundo, o da realidade dos surdos, sem indulgência inútil, mas também o da esperança dos surdos. Certamente, o surdo chega a falar, bem ou mal, mas trata-se apenas de uma técnica incompleta para muitos deles, os surdos profundos. Com a língua de sinais, mais a oralização e a vontade voraz de comunicação que sentia em mim, iria fazer progressos espantosos.

O primeiro, o imenso progresso em sete anos de existência acabara de acontecer: eu me chamo “EU”.